Sediado na Universidade Nova de Lisboa, o projeto LITESCAPE.PT – Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental é realizado pelo IELT – Instituto de Estudos de Literatura e Tradição (FCSH), em parceria com o IHC – Instituto de História Contemporânea (FCSH), a Fabula Urbis e a Fundação Eça de Queiroz. Dirigido pela bióloga Ana Isabel Queiroz entre 2010 e 2017, o projeto deu vida a uma aplicação e encontra-se desde 2018 coordenado por Daniel Alves e Natália Constâncio.
Estes dois investigadores participaram, em 2025, numa das Conversas sobre Turismo Literário do Lisboa Pessoa Hotel, subordinada ao tema “Portugal: Literatura e (é) Paisagem“. Neste artigo em forma de entrevista, voltamos a ler as suas palavras para que nos descrevam os aspetos fundamentais do próprio Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental.
1. Quais são as principais diretrizes do Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental?
D.A./N.C.: Nós pretendíamos estudar os padrões de evolução da paisagem, partindo da literatura como fonte principal. É um projeto que procura contribuir para uma certa literacia ambiental e para o turismo também. Ele consta num conjunto, não só de informações, mas de ferramentas que permitem isso mesmo.
O projeto tem três vertentes. É um projeto colaborativo, na medida em que ele vai usufruir da colaboração de 54 leitores que atualmente estão na base de dados, e que vêm de múltiplas áreas disciplinares. Daí essa segunda componente ser um projeto interdisciplinar, porque junta gente da literatura, da antropologia, da biologia, da história, de múltiplas áreas de saber. E é um projeto que tem esta componente digital muito forte, não só na investigação, na metodologia de investigação, como também na divulgação, uma vez que temos o website.
2. O que é que o projeto na raíz implica?
D.A./N.C.: O objetivo era estudar, aproveitar a literatura depois do romantismo, porque a própria conotação da leitura da paisagem no romantismo era diferente. O que pretendíamos era, de meados do século XIX até à atualidade, aproveitar toda a literatura que falava sobre Portugal Continental e dela retirar descrições de paisagens. Não todas as descrições de paisagens, mas pelo menos aquelas que fosse possível, no mínimo, fazer uma referência a unidades territoriais com fins estatísticos e de organização de território.
Estas não têm nada a ver com literatura, mas permitem fazer um tratamento estatístico sobre o número de citações que aparecem em cada uma das áreas do país, e assim permitem descobrir a caracterização da fauna, da flora, das paisagens que estão ali identificadas.
3. O que é possível fazer através da plataforma online do projeto, nomeadamente no contexto do turismo literário?
D.A./N.C.: O website do projeto é consultável no computador, no tablet, no telemóvel. Com o GPS ligado é possível ver os excertos literários que estão num raio de 500 metros à vossa volta.
No âmbito do turismo, por exemplo, é possível fazer um passeio de forma autónoma numa cidade ou num local qualquer do país e perceber se existem, ou não existem, excertos e fazer uma leitura olhando para a paisagem que eles descrevem. Isso acaba por ser uma valência também muito interessante. Existem quase 900 excertos literários registados que são agrupados no site.
4. E no que respeita aos hotéis literários, o Atlas tem excertos e referências sobre eles?
D.A./N.C.: O nosso projeto inicialmente não tinha como base a intenção de estudar os hotéis literários, nem o turismo literário. Contudo, acabámos por ser convidados para desenvolver um trabalho coordenado pela professora Sílvia Quinteiro da Universidade do Algarve, sobre Hotéis Literários de Portugal Continental.
Relativamente a hotéis literários no Atlas, por exemplo, temos referências de Ramalho Ortigão e de Eça de Queiroz em hotéis de Sintra. Há, na literatura, descrições lindíssimas do ambiente e da paisagem em que vários hotéis de Portugal são situados, o que ajuda inclusivamente a perceber o relacionamento entre sociedade e paisagem naquela altura.
Um agradecimento a Daniel Alves e Natália Constâncio, e a todos os participantes do evento Conversas sobre Turismo Literário: Portugal: Literatura e (é) Paisagem (Lisboa Pessoa Hotel, 16 out. ’25).
Fabrizio Boscaglia
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