Em janeiro de 1926, Fernando Pessoa funda, juntamente com o seu cunhado Francisco Caetano Dias, a Revista de Comércio e Contabilidade, da qual saem seis números, de janeiro até junho do mesmo ano. A publicação dedicava-se, conforme nos informa o académico pessoano Fernando Cabral Martins, «ao estudo da teoria e da sociologia do comércio e ao esclarecimento dos problemas de organização de um escritório comercial».

Ainda o investigador português faz notar como este tipo de dedicação aos assuntos mais “concretos” da vida comercial terá (co)incidido com o surgimento, em anos imediatamente seguintes, do semi-heterónimo Bernardo Soares, autor do Livro do Desassossego e «ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa».

Revista de Comércio e Contabilidade, nº 1. (Imagem: Modernismo)
Revista de Comércio e Contabilidade, nº 6. (Imagem: Modernismo)

O cunhado de Pessoa era o diretor da revista, mas a morada oficial da mesma era o endereço de residência do poeta, na Rua Coelho da Rocha n.º 16, 1º, em Lisboa, onde hoje se encontra a Casa Fernando Pessoa. É supérfluo dizer que o próprio poeta foi o mais prolífico autor de textos nesta publicação periódica.

São quase trinta os textos que Pessoa publicou na Revista de Comércio e Contabilidade. O primeiro sendo intitulado «Palavras Iniciais» e o último «A Reforma do Calendário e as suas Consequências Comerciais».

Texto publicado na Revista de Comércio e Contabilidade, nº 1. (Imagem: Modernismo)
Texto publicado na Revista de Comércio e Contabilidade, nº 6. (Imagem: Modernismo)

Esta faceta mais virada para os assuntos económicos e organizativos não se reflete apenas na criação do acima mencionado semi-heterónimo Bernardo Soares, mas caracteriza a vida adulta de Fernando Pessoa enquanto empreendedor, empregado e tradutor de documentos e cartas comerciais em vários escritórios e empresas da Baixa de Lisboa. Sobre estas temáticas, entre outras publicações, vejam-se os livros Fazer Pela Vida: um retrato de Fernando Pessoa o empreendedor, de António Mega Ferreira (2005) e Fernando Pessoa Empregado de Escritório de João Rui de Sousa (2010).

Fazer Pela Vida: um retrato de Fernando Pessoa o empreendedor, de António Mega Ferreira (2005). (Imagem: Assírio & Alvim)
Fernando Pessoa Empregado de Escritório, de João Rui de Sousa (2010). (Imagem: Assírio & Alvim)

Quanto às outras publicações de Pessoa no ano de 1926, em maio desse ano publica na revista modernista Contemporânea, o poema «O menino da sua mãe». No mesmo período assina um depoimento n’O Jornal do Comércio e das Colónias. Já durante o verão saem «O individuo é que é gente», em Sol: Bi-semanário Republicano, assim como «Inquérito de Augusto Ferreira Gomes», do heterónimo Álvaro de Campos, n’A Informação. Ainda em Sol, Pessoa publica ao longo do ano estes outros escritos: «Crónica – Um grande português», «Anti-Gazetilha», e textos de feroz ironia dirigida ao Fascismo na Itália, dos quais nos deram a conhecer os investigadores José Barreto e Jorge Uribe: «Um Camisa Branca – O ‘Duce’ Mussolini é um louco… afirma ao ‘Sol’ um italiano culto que ama sinceramente a Itália» e «A Loucura do ‘Duce’ – Fascistas Italianos em Lisboa – Um desmentido no ar – Os privilégios de certa Imprensa – De noite todas as camisas… são negras».

Poema «O menino da sua mãe», de Fernando Pessoa ortónimo. (Imagem: Hemeroteca Digital)
Sol, 20 de novembro de 1926. (Imagem: Mussolini é um louco: uma entrevista desconhecida de Fernando Pessoa com um antifascista italiano, José Barreto)

Voltando à revista Contemporânea, são nela publicados, em 1926, dois escritos poéticos de Pessoa que se tornaram, ao longo dos anos, dos mais relevantes do ponto de vista literário e crítico, no contexto dos estudos pessoanos. Trata-se do poema de Álvaro de Campos «Lisbon Revisited (1926)» e das quadras poéticas «Rubaiyat» de Pessoa ortónimo, inspirados na poesia do autor persa medieval Omar Khayyam, uma das maiores paixões intelectuais do autor da Mensagem.

Poema «Lisbon Revisited (1926)», de Álvaro de Campos. (Imagem: Hemeroteca Digital)
Quadra poética «Rubaiyat», de Fernando Pessoa ortónimo. (Imagem: Hemeroteca Digital)

Os versos de «Lisbon Revisited (1926)» são entre os mais eloquentes que Pessoa dedicou à cidade onde nasceu, viveu a grande parte da sua vida, e faleceu. No Lisboa Pessoa Hotel, este legado pessoano-lisboeta é celebrado a cada sexta-feira, através do passeio literário A Lisboa de Fernando Pessoa, por nós concebido e conduzido no contexto das atividades de Turismo Literário do próprio hotel. Aproveitamos também para destacar que o próprio conjunto de poemas «Rubaiyat» de 1926 foi recentemente reeditado por nós na antologia de textos de Fernando Pessoa intitulada O Sábio Árabe: escritos sobre a civilização arábico-islâmica (Shantarin, 2025).

Fabrizio Boscaglia

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